Do Espiritismo à Conscienciologia

09:00:00 Administrador 5 Comments



Devido a uma série de questões familiares, comecei a freqüentar um centro espírita (kardecista, mesa branca e não umbandista) vinculado a Ramatis que ficava literalmente do outro lado da cidade. Na época tinha 15 anos e todo sábado recebia passes e passava pela seção de desobsessão (desassédio) como todos que ali freqüentavam.

Com o passar do tempo, disse que gostaria de ajudar de alguma forma e me colocaram para chamar as pessoas pelo número das fichas para a desobsessão. Basicamente durava a tarde toda do sábado. Por me sentir muito bem ali disse que gostaria de ser médium e atuar nos serviços da casa. Fui informado que era preciso ter no mínimo 18 anos para começar a formação devido a diversos fatores, inclusive a formação corporal.


Devido a minha insistência, fui avisado que levariam meu pedido para uma instância de outra cidade para decidir (não me lembro qual é), mas para começar provavelmente só depois dos 18 anos mesmo. Entretanto, quando a resposta chegou foi diferente do que se imaginava, pois o parapsíquico que avaliou a situação disse que eu tinha “bagagem” e meu caso era uma exceção e, portanto, poderia começar a desenvolver a mediunidade com, então, 16 anos.


Naquela época não sabia que a tal “bagagem” era o que chamamos de ser um intermissivista. No entanto, tal fato me deu certa força íntima, pois, mesmo sem entender direito, sabia que de alguma forma era uma exceção positiva perante a média social. E com 16 anos comecei a formação mediúnica para trabalhar nos processos da fraternidade.

Depois do treinamento, os iniciantes começavam a atender com os passes magnéticos, ou seja, a doação de energias em favor da saúde e da terapêutica alheia. Nessa época foi muito interessante perceber as diferenças de padrão entre as pessoas e as várias cargas energéticas que ocorriam nesses contatos. Ficou nítido que as aparências, em matéria de evolução e energia, não significavam nada.

Depois de certo tempo trabalhando como energizador, um dia cheguei e notei que outros médiuns da casa estavam me olhando de modo diferente. Logo depois, soube que tinham recebido a informação de que eu deveria começar a trabalhar como doutrinador nas seções de desobsessão (tarefa mais “nobre” da casa). Em outras palavras, um médium iria incorporar consciências doentias na minha frente e eu iria conversar com elas visando o desassédio.

Ainda com 16 anos comecei a fazer parte desse serviço de assistência e de relação direta com seres de todos os tipos. Esse desassédio funcionava da seguinte forma: havia uma cama onde a pessoa assistida deitava e ao seu lado havia duas cadeiras para os médiuns - uma para o incorporador e o outro com o desobsessor.

Assim que a pessoa deitava, era feita a ligação energética e as consciências extrafísicas necessitadas eram incorporadas para uma conversa de auxílio. Alguns atendimentos eram rápidos e outros um pouco mais demorados, mas todos recebiam alguma assistência e auxílio. Nos sábados os atendimentos iam do começo da tarde até o começo da noite e era comum conversar com 20 consciências ou bem mais por dia.

Uma situação inusitada que freqüentemente ocorria eram pessoas da terceira ou quarta idade que se deitavam na cama para a desobsessão e se chocavam ao ver um garoto de dezesseis anos no serviço. A extremidade das faixas etárias gerava certo estranhamento no começo, mas depois acabava sendo tratada com naturalidade. Quando completei 18 anos, idade em que deveria estar iniciando, já estava experiente por ter conversado com muitas consciências extrafísicas.

Um ponto relevante nesse caso é que no final dos trabalhos do dia os últimos atendimentos eram reservados para os próprios médiuns. Ou seja, primeiro o incorporador fazia uma incorporação para si próprio ou para algum familiar necessitado e depois era feita para o médium desobsessor. Isto é, eu tive a oportunidade de ouvir e conversar com meus próprios assediadores, fazer diversas reconciliações e “comprovar” que os fenômenos e a multidimensionalidade era real.

Ocorreram muitos casos nesse “autodesassédio” em que ouvi os seres extrafísicos doentios falarem de particularidades, pessoas, fatos e situações daquele momento de vida de modo impressionante. Como o médium que trabalhava comigo no dia era aleatório, não tinha como a pessoa saber detalhes da minha vida para expor certos pontos com tanta propriedade. Também foi fácil e óbvio constatar que tantos assédios ocorrem por motivos banais ou que existem apenas na cabeça do assediador.

Outro ponto desse atendimento pessoal realizado no final é que eventualmente aparecia algum amparador da casa ou outra consciência mais madura que quisesse conversar ou passar alguma mensagem. Dessa forma, tive a oportunidade de ouvir inúmeras informações de alto nível que foram muito importantes. Em algumas raras oportunidades sentia que consciências evoluídas se apresentavam para passar mensagens e não espero ficar divagando ou especulando seus níveis evolutivos, pois o que interessa é que tinham elevada expressão evolutiva e isso basta.

Antes que alguém questione já afirmo que não desconfio que nenhum desses seres evoluídos esteja no nível de Serenão, até porque não adianta querer dar uma de esperto ou subestimar a capacidade de anonimato dessas consciências. Se um dia algum deles se manifestou, o que acho bem difícil, provavelmente foi alguém que jamais desconfiaria. Entretanto, algumas interações foram impactantes e deixaram marcas positivas até os dias atuais.

Outro ponto interessante é que nesse atendimento pessoal, além da oportunidade das conversas e reconciliações, notei que começaram a surgir consciexes que não tinham relação direta comigo ou com pessoas conhecidas. No começo desse processo sentia certa frustração por não atender demandas pessoais e ignorar o que ocorria. Com o passar do tempo ouvi que alguns amparadores pediam para essas consciências descompensadas me seguirem ou elas sentiam a necessidade de ficarem perto por alguma razão desconhecida.

Com o passar dos anos esse tipo de consciência “aleatória” que ficava por perto para ser atendido passou a ser mais numeroso do que os desassédios pessoais no último atendimento. Comecei até a identificar eventualmente quando uma consciência que precisava ser assistida se “conectava” pela primeira vez. E pude confirmar esse fato diversas vezes quando durante a seção a consciência falava onde e quando ela tinha me encontrado. Ou seja, ocorria a percepção e posteriormente a confirmação no momento da conversa. Naturalmente, essa detecção da minha parte nem sempre ocorria.

Quando ouvi na Conscienciologia o que significava a isca lúcida ou iscagem assistencial sabia que se tratava do que ocorria comigo nessas situações. Ou seja, alguém extrafísico necessitado é colocado no campo energético para posteriormente ser assistido e encaminhado. Esse é um dos motivos pelos quais estudo e busco aperfeiçoar a iscagem consciente de modo mais abrangente, especialmente depois de ter começado a tenepes.

Falando em Conscienciologia, no mesmo ano que comecei a trabalhar como médium participei pela primeira vez de um curso com alguns familiares. Na época eram os “Ps” (fiz o P1 e P2) com o professor Umberto Correa que foi o primeiro docente conscienciológico e uma espécie de “chave” nesse contato. Naquele período os cursos tinham apenas um final de semana e demorava meses para acontecer outro módulo.

O interesse pelos assuntos conscienciológicos naquele momento servia como um complemento e até certo arrimo nas atividades que desempenhava. Lembre-se que na época tinha apenas dezesseis anos. Dessa forma, fui fazendo os poucos e esporádicos cursos existentes com os professores que vinham de outros estados. Também não fazia ideia de que era possível ser voluntário ou pesquisador, pois não tocaram no assunto durante os eventos.

Com o passar dos anos, fui lendo e entendendo cada vez mais sobre a ciência da consciência e percebendo que tinha muito para desenvolver. Em dezembro de 1999 (aos 18 anos) fiz a primeira viagem a Foz para um curso sobre sinalética energética com Waldo Vieira e tive vários insights e percepções marcantes.

Durante os estudos pessoais percebi que havia muitas lacunas no Espiritismo e que algumas práticas conscienciológicas poderiam ser avaliadas. Conversei com a direção do centro e perguntei se gostariam que eu levasse alguns temas para o estudo em grupo, pois via que ajudaria em diversos aspectos. Como a ideia foi aceita, fui listando o que achava fundamental e acabei entregando duas folhas com mais de 100 temas conscienciológicos. Infelizmente não discutimos um tema sequer, talvez por entregar temas demais.

Entre esses assuntos estava, por exemplo, a autodefesa energética que visa a manutenção do equilíbrio pessoal frente a diversos ataques extrafísicos. No Espiritismo se tinha proteção durante os trabalhos assistenciais, mas e depois na vida cotidiana? Como se autodefender? Fiz análises desse tipo ao montar essa listagem até perceber que o interesse não era dos outros e sim pessoal. Esse ponto foi essencial para compreender as próprias motivações de querer novos caminhos.

Depois de um período de reflexão, optei pelo voluntariado da Conscienciologia (no ano 2000) por diversas razões, especialmente por não terceirizar a evolução pessoal e por ansiar ampliar a assistencialidade. Na Ciência, qualquer pessoa tem a liberdade para estudar, falar a respeito e se desenvolver sem precisar ser alguém especial, sem temer ofender a própria doutrina e nem tomar outra atitude restringindora sem fundamentos concretos. A Ciência deve ser aberta, com debates claros e sem retaliações.

Imagine se no passado tivessem dito: “Quem esse alemão, que trabalha em um escritório de patentes, acha que é para propor algo desse gênero tentando modificar a Física? Vamos arrumar alguma forma de atingir a sua pessoa e assim diminuir o trabalho desse tal de Einstein!” Em processos de pesquisa o que vale são as ideias, investigações e refutações (se necessário) que não se fecham com conhecimentos dogmáticos.

Tenho muito respeito e gratidão por tudo que vivenciei e aprendi nos anos de trabalho de desassédio. Andava de ônibus para atravessar a cidade (gastava um bom tempo no deslocamento) e nos sábados daquela época, enquanto meus amigos pensavam em baladas e outras formas de diversão, doava o que tinha em vista de uma causa maior. Não me arrependo desse período.

Tive também a oportunidade de conhecer alguns sensitivos brilhantes (muito corretos e dignos) que foram exemplos silenciosos, sem contar os prováveis intermissivistas que encontrei. Uma senhora, inclusive, ao que tudo indica, era o que na Conscienciologia se chama de Ser Desperto (que não sofre mais nenhum tipo de assédio ou obsessão) aparentemente consolidado.

Tenho grande satisfação de ter sido um desassediador precoce mesmo sem entender totalmente as nuances que tornaram isso possível. Vejo que muitos espíritas poderiam avançar mais se conhecessem técnicas, princípios e práticas conscienciológicas do mesmo modo que também já observei alguns conscienciólogos cheios de teorias, mas com muito pouca interação prática com o extrafísico.

Toda essa jornada foi exposta de modo resumido e sintético no intuito, em primeiro lugar, de agradecimento e também para pontuar que deve existir respeito e pacificação entre as várias vertentes do conhecimento. A separação de Waldo Vieira com Chico Xavier criou certas feridas no passado e alguns têm a ideia errônea de que a Conscienciologia combate o Espiritismo. Apesar das diferenças, ambas têm muitos pontos positivos que podem ser extraídos em favor do próximo. É importante se posicionar sobre o melhor caminho para você ao invés de frequentar vários lugares ao mesmo tempo.


O texto traz relatos pessoais apenas como didática.
O objetivo dessa auto-exposição mínima é
exemplificar conceitos e gerar questionamento.
Você valoriza vivências básicas como essa? 

Por Alexandre Pereira.





5 comentários:

  1. agradecido pelo relato que sugere esclarecer
    pontos sequer imaginados.
    agradecido pela contribuição.

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  2. Agradeço o relato. Universalista e acolhedor. Reflete minha experiência. Sinto falta dos trabalhos de desobsessão, por equipe, na conscienciologia e dos serviços de pronto socorro que o espiritismo se propõe a oferecer desde sempre. Sinto falta da liberdade intelectual e da atenção ao desenvolvimento Parapsiquico e da projetabilidade lúcida no espiritismo.
    Ainda frequento centros espíritas por entender que possuem oportunidades únicas de aprendizado e me mantenho conectado a consciologia através das ICs e de outros pesquisadores autônomos como Wagner Borges e Saulo Calderon.

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    1. Eu também sinto muito a falta da liberdade intelectual e da atenção ao desenvolvimento Parapsiquico e da projetabilidade lúcida no espiritismo, apesar que no centro que frequento a gente aborda abertamente esses temas nas palestras, nos estudos, etc. Mas eu fico muito triste em ver o Espiritismo se tornando uma religião dogmática e sectária e a culpa não é dos Espíritos e sim dos Espíritas que não estudam, que não raciocinam sua fé, que tem por verdade absoluta o que nem Kardec considerava como tal. Ele que sempre instruiu a busca pelo conhecimento e preconizava passar todas as informações obtidas pelo crivo da razão não publicou suas obras para que elas ficassem sem uma continuação, tidas como tudo o que se deve saber para ser considerado Espírita e nada mais. Espero que as coisas mudem, senão o Espiritismo jamais fará jus ao "título" de Terceira Revelação.

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  3. Alexandre, temos alguns pontos em comum. Você foi da Ramatis do Rio, na Tijuca? Entrei lá em 1992, fui passista e depois ingressei na escola de desobsessão e doutrinação (às quartas-feiras), cujas sessões para o público são às segundas-feiras. Fui um dedicado e um estudioso espírita, mas chegou a um ponto que o Espiritismo não respondia mais. Tive uma percepção parecida com a sua. Hoje na Conscienciologia continuo a frequentar a Ramatis e algumas casas espíritas aqui no Rio. Estou estudando a desobsessão com a abordagem do livro "Diálogo com as Sombras", seguida pela escola da Ramatis, que considero o melhor trabalho de desobsessão feito no Rio. Concordo 100% com o Sydnei e seu relato até me animou, pois me sinto peixe fora d'água nas sessões espíritas, mas sinto que tenho que frequentar para colher material para estudo e depois propor alguma associação com as técnicas conscienciológicas. A desobessão é um trabalho ímpar. Infelizmente poucas casas espíritas oferecem este trabalho e a grande maioria, de forma errada, mal feita e excessivamente religiosa. Tenho estudado também a Apometria. Você conhece? A tempo: parabéns pelo excelente artigo!

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  4. Grata pelo texto em sua síntese,tão sucinto e ao mesmo tempo tão detalhado para uma ímpar compreenssão, principalmente para quem tem pouco conhecimento e muitas dúvidas...vou caminhando com sua assistencia, a pouco descoberta...Agradeço muito sua ajuda e por promover a mim uma luz, onde já começava a surgir uma desesperança... Parabéns pelo trabalho realizado...Gratidão...

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